Estava me lembrando hoje - na verdade para esquecer daqueles que não se lembram -de um texto bem interessante que vi num livro de redação. E ele é de nada mais nada menos que Luís Fernando Veríssimo. Estava pensando como ocuparia meu tempo nas férias e lembrei dele. Recordei-me de meu antigo objetivo de conhecer Veríssimo filho mais profundamente. E procurar o livro de redação também era parte de um objetivo: escrever e ler melhor. Sei que no início o objetivo desse blog era apenas de digitar melhor, ou ainda aliviar minha cabeça de meus pensamentos, sentimentos, atitudes não tidas e palavras não ditas. Porém, dando uma olhada no blog de outra pessoa, percebi o quanto sou patética. Não que essa pessoa fosse melhor do que eu, mas o que ela escreve é bem parecido com o que escrevo aqui. Então achei patético, reclamar da nossa vida o tempo inteiro, falando de como ela é "triste e sem graça". Principalmente essa pessoa, que deve ter minhoca na cabeça pra dizer uma coisas dessa com a vida que tem.
AHHH!!! Acabei fugindo do assunto. Ainda são os efeitos da raiva e da inveja despertados em mim semana passada. Mas o intuito era mostrar esse texto bem interessante de meu querido Veríssimo, aproveitem a leitura público fantasma, kkkkkkkkkkkkkk...
A TIMIDEZ E A CONTRADIÇÃO
AHHH!!! Acabei fugindo do assunto. Ainda são os efeitos da raiva e da inveja despertados em mim semana passada. Mas o intuito era mostrar esse texto bem interessante de meu querido Veríssimo, aproveitem a leitura público fantasma, kkkkkkkkkkkkkk...
A TIMIDEZ E A CONTRADIÇÃO
Luiz Fernando Veríssimo
Ser um tímido notório é uma contradição. O tímido tem horror a ser notado, quanto mais a ser notório. Se ficou notório por ser tímido, então tem que se explicar. Afinal, que retumbante timidez é essa que atrai tanta atenção? Se ficou notório apesar de ser tímido, talvez estivesse se enganando junto com os outros e sua timidez seja apenas um estratagema para ser notado. Tão secreto que nem ele sabe. É como no paradoxo psicanalítico: só alguém que se acha muito superior procura o analista para tratar um complexo de inferioridade, porque só ele acha que se sentir inferior é doença.
Todo mundo é tímido, os que parecem mais tímidos são apenas os mais salientes. Defendo a tese de que ninguém é mais tímido do que o extrovertido. O extrovertido faz questão de chamar atenção para sua extroversão, assim ninguém descobre sua timidez. Já no notoriamente tímido a timidez que usa para disfarçar sua extroversão tem o tamanho de um carro alegórico. Daqueles que sempre quebram na concentração.
Segundo minha tese, dentro de cada Elke Maravilha existe um tímido tentando se esconder e dentro de cada tímido existe um exibido gritando “Não me olhem! Não me olhem!”, só para chamar a atenção.
O tímido nunca tem a menor dúvida de que, quando entra numa sala, todas as atenções se voltam para ele e para sua timidez espetacular. Se cochicham, é sobre ele. Se riem, é dele. Mentalmente, o tímido nunca entra num lugar. Explode no lugar, mesmo que chegue com a maciez estudada de uma noviça. Para o tímido, não apenas todo mundo mas o próprio destino não pensa em outra coisa a não ser nele e no que pode fazer para embaraçá-lo.
O tímido vive acossado pela catástrofe possível. Vai tropeçar e cair e levar junto a anfitriã. Vai ser acusado do que não fez, vai descobrir que estava com a braguilha aberta o tempo todo. E tem certeza de que cedo ou tarde vai acontecer o que o tímido mais teme, o que tira o seu sono e apavora os seus dias: alguém vai lhe passar a palavra.
O tímido tenta se convencer de que só tem problemas com multidões, mas isto não é vantagem. Para o tímido, duas pessoas são uma multidão. Quando não consegue escapar e se vê diante de uma platéia, o tímido não pensa nos membros da platéia como indivíduos. Multiplica-os por quatro, pois cada indivíduo tem dois olhos e dois ouvidos. Quatro vias, portanto, para receber suas gafes. Não adianta pedir para a platéia fechar os olhos, ou tapar um olho e um ouvido para cortar o desconforto do tímido pela metade. Nada adianta. O tímido, em suma, é uma pessoa convencida de que é o centro do Universo, e que seu vexame ainda será lembrado quando as estrelas virarem pó.